Saudade , substantivo transeunte


Não tenho apenas saudade do que passei.
Sinto saudade do que não aconteceu.


Um olhar que não se encontrou , uma idéia que não deu certo , um lugar em que não estive , um poente que não presenciei.


Só quem nunca viveu na luz de sua própria imaginação sente saudade somente do que foi e não do que poderia ter acontecido...

Física e química

Entregar-se ao momento, descobrir a própria alma nos gestos refletidos no outro. Um encontro inesperado, as propostas indecorosas da vida e o clímax de um acaso-não-ao-acaso. Quando as coincidências se confundem com a intenção futura e a vontade pregressa. Momentos fazendo química de substâncias nada elementares, quando palavras se tornam vapor exalado de misturas.

Tornar-se o próprio veneno, exposto à corrosão do que lhe vai por dentro, lastro ácido e atroz que lhe atravessa os vasos e se oferece ao ar, cercando seu corpo como um pensamento, ou o desenhar de um gesto, ou um cheiro que não se reconhece mas que a ninguém aturde como a si mesmo, nem que se quebrassem todos os pratos, todas as janelas e arrebentasse as portas antes de sair, como se fosse possível sair deste vagar pelo seu circo particular de horrores, nem mesmo assim desmancharia o espanto.

Ainda que conseguisse deixar o labirinto, não livrar-se-ia das escolhas, dos tantos caminhos que se descortinam. Nem derrubadas todas as paredes, libertar-se-ia de tudo, na inexorável queda do fruto de Newton. No pecado da gravidade, despencando até você. O entorpecer dos sentidos, mergulhar no abismo de suas sombras. Passado e presente quebrando os ossos como se desafiando mente e corpo a serem ainda sólidos. A peçonha por sob a pele, pulsando para anunciar o tempo.

E na seqüência tomaria mais um gole disso que é você e depois outro e mais um e ainda outro e outro antes do fim.

*Por: Poisongirl e Troll

- Tô sumida , muito trabalho e estudo, mas não esqueço esse universo aqui.
Hoje vocês ficam com a primeira parceria minha ( sob a alcunha de Poisongirl ) com meu namorado blogueiro.
8 meses de namoro sugerem que sim , é possível amor na blogosfera...

Olhar II


Quando não tem fronteiras a tristeza e o olhar de dentro do olhar (fora de si) anda em busca do tempo perdido , sem medo das arestas você percebe que não há margens onde se possa por os pés e parar e que sua pele , morta , restou além da fronteira inevitável , no apagamento das bordas , dos limites , no universo infinito e agora contaminado por outro infinito- o tempo.
E a lama que carrega o seu fluir ...


Antes do fim da queda você enxerga que o limite é só você – cruzando a cidade , o vento que toca sua pele já deslizou pelos rebocos , folhas , espelhos , e aí seu corpo é só outro objeto , carne quente , fome , desejo , porque o espírito é uma entre muitas possibilidades , a que carrega o espanto e a dor que você gostaria de poder largar em qualquer ferro-velho.